4. REPORTAGENS janeiro 2013

1. CAPA  17 CONSELHOS ERRADOS QUE AS PESSOAS DO
2. ATUALIDADES  O HOMEM QUE MATOU BIN LADEN
3. COMPORTAMENTO  CINQUENTA TONS DE ROSA
4. TECNOLOGIA  A REVOLUO DAS IMPRESSORAS 3D
5. ZOOM  ENTRE OS MUROS DA ESCOLA
6. CINCIA  2045: O ANO EM QUE OS COMPUTADORES ASSUMIRO O PODER

1. CAPA  17 CONSELHOS ERRADOS QUE AS PESSOAS DO
Seguir o corao pode ser uma roubada. Alma gmea  algo to crvel quanto os deuses do Olimpo. Escolher a profisso que ama vira e mexe acaba em frustrao. Conselhos desse tipo, comuns no amor, no trabalho e no cotidiano, no funcionam, pois no levam em conta como o crebro e o corpo funcionam. Todos os dias disparamos e recebemos frases que prometem ser solues simples e diretas para problemas e dilemas do dia a dia. Pense positivo? Srio? Para comear o ano novo bem de verdade,  melhor evitar aquele que costuma ser o primeiro erro: exagerar nas resolues.
REPORTAGEM Maurcio Horta
EDIO Felipe van Deursen
DESIGN Jorge Oliveira
ILUSTRAO Pedro Piccinini

1- EM 2013, COMECE A ACADEMIA, PARE DE FUMAR, BEBA MENOS, SEJA FIEL, ORGANIZE-SE, LEIA MAIS, DURMA MAIS CEDO, LARGUE O CAF, COMA MELHOR...
Vem chegando o vero, o ano novo e, com ele, aquela vontade de ser algum melhor, mais equilibrado, centrado, saudvel. E a tome resolues para c e para l.  normal. Faz parte do nosso ritual de rveillon. Mas esquea isso. Quanto mais decises desse tipo tomarmos ao mesmo tempo, menor vai ser a chance de que alguma delas d certo. O psiclogo britnico Richard Wiseman acompanhou mais de 3 mil pessoas que fizeram resolues de Ano-Novo. No incio, 52% estavam confiantes de que teriam sucesso, mas, passado um ano, apenas 12% atingiram seus objetivos. Pare e pense na ltima vez em que voc fez alguma resoluo. Quantas deram certo? Quantas foram largadas no meio do caminho? Isso ocorre porque nossa fora de vontade funciona como um msculo: ela pode ser exercitada para se fortalecer, mas, quando usada alm do limite, entra em fadiga. E para provar nosso limite de autocontrole no faltam experimentos malucos. O pioneiro na rea  Roy Baumeister, da Universidade Estadual da Flrida, Estados Unidos. Ele pegou dois grupos de estudantes com fome e os desafiou a resolver um quebra-cabea. Ao primeiro grupo, o pesquisador exibiu um biscoito de chocolate. Ao segundo, nada. As pessoas do segundo time dedicaram 20 minutos ao quebra-cabea. Os que foram atiados desistiram em oito minutos. Em outra pesquisa, da Universidade Macquarie, da Austrlia, observou-se que estudantes em poca de provas fumam mais, param de se exercitar, dobram o consumo de cafena, bebem mais lcool, gastam mais, comem mais porcaria, cuidam menos de sua higiene  e, em vez de estudar mais, procuram passar mais tempo com seus amigos. E a, se identificou? A razo para isso, segundo Michael Inzlicht, da Universidade de Toronto, Canad, est em uma estrutura cerebral chamada crtex cingulado anterior, envolvida na deteco de erros. Ela d um alarme quando voc faz algo diferente do que voc pretende fazer. Quando esse sistema  usado demais, a capacidade de detectar erros se deteriora e voc tem mais dificuldade em controlar as reaes. Fica difcil se conter. Ento esquea aquele monte de promessas de rveillon, porque a lista enorme de metas no funciona. A no ser que voc queira mais um ano novo empurrando problemas velhos com a barriga.

DE CADA 10 PESSOAS que fazem resoluo de Ano-Novo, metade se sente confiante de que vai chegar l. Mas s uma realmente consegue.

O CAMINHO CERTO Quer que sua resoluo funcione? Desista da lista enorme de promessas.
Escolha uma meta de cada vez e procure comear imediatamente, em vez de deix-la para segunda-feira  ou para 2014.
Foque em metas especficas, mensurveis e com prazo estabelecido. Correr meia hora trs vezes por semana  melhor que fazer atividades fsicas.
No encare um deslize como fracasso. Se voc fumou durante um encontro com amigos, voc pisou na bola, mas no abortou o plano de largar o cigarro. Relaxe.

2- NO V PARA A CAMA NO PRIMEIRO ENCONTRO
Um estudo da Universidade de Iowa, EUA, avaliou 640 relacionamentos e concluiu que quem transou de cara era menos satisfeito que quem resolveu esperar. Mas, ao tirar do grupo os que no queriam nada muito srio no relacionamento, a diferena sumiu. Tanto fazia quando comeou o sexo. A explicao, segundo Anthony Paik, autor do estudo, est nas intenes da pessoa. A nica vantagem em aguardar  peneirar quem no est disposto a nada srio. Se ambos querem algo a mais, no h por que esperar. Porm, o problema de focar tanto em arranjar namorado  que a pessoa pode cair no nosso sexto conselho.

3- PROCURE SUA ALMA GMEA
No incio, os humanos tinham quatro pernas, quatro mos, duas faces, quatro orelhas, dois rgos sexuais e eram fortes como os deuses. Com receio que escalassem o cu para lutar contra eles, as divindades pensaram em extermin-los. Mas, se fizessem isso, no restaria quem os idolatrasse. A soluo foi, ento, cortar os humanos em dois como se faz com os linguados, escreveu Plato em O Banquete. Desde ento, os humanos buscam sua alma gmea, essa metade perdida. A bonita histria da mitologia grega traz uma ideia to errada quanto popular  a de que relacionamentos do certo quando as pessoas so parecidas. Estudos identificam que, de fato, casais tendem a compartilhar certas caractersticas, como posio poltica, religio, condio social e valores. Mas talvez esses casais estejam juntos no porque tm muito em comum, mas porque se conheceram em ambientes onde certas caractersticas so compartilhadas, seja na igreja, faculdade, trabalho ou bar. Porm, em um mesmo grupo h pessoas com personalidades distintas, e mesmo assim elas podem se unir. A pergunta que vale, ento,  outra. Pessoas de personalidades parecidas desenvolvem relacionamentos melhores? Alguns estudos concluem que sim. Outros dizem que os opostos se atraem. E outros explicam que pessoas parecidas se do bem a curto prazo, pois se conectam com mais facilidade, mas no a longo prazo, j que personalidades diferentes dividiriam melhor tarefas e evitariam o tdio. Bem, estudo tem de monte. Mas um outro, da Universidade Humboldt, Alemanha, chama a ateno. Ele analisou cem casais e concluiu que a resposta no est no parceiro, mas na prpria pessoa. Dos traos de personalidade, o que mais influiu foi sociabilidade, a disposio a cooperar e resolver problemas. Outro fator que conta  a qualidade da relao com amigos e parentes  gente satisfeita com aqueles prximos tambm tem um relacionamento melhor. Em suma: compatibilidade de amantes  algo superestimado. O que importa  como voc .

4- NO D IMPORTNCIA AO SEXO
O amor nasce do desejo sexual, concluiu o psiclogo Jim Pfaus, da Universidade Concrdia, Canad. Ao analisar a atividade cerebral de pessoas diante de imagens
erticas e de fotos dos parceiros, sua equipe viu que os sentimentos ativam reas
diferentes de uma regio chamada corpo estriado. O desejo envolve uma parte ligada a estmulos instintivamente prazerosos. J o amor ativa uma rea que liga esse prazer a um estmulo. Em resumo, diz Pfaus, amor  um hbito formado a partir do desejo sexual conforme ele  recompensado. O sexo alimenta o amor. Helen Fisher, antroploga da Universidade de Rutgers, EUA, resume a histria: naso pasyo, maya basyo.  um dito popular do Nepal que quer dizer pnis entrou, amor chegou. Sim, a verso nepalesa da famosa rima chula brasileira. E a queda do desejo? Se antes o amor envolve uma atividade intensa no mecanismo de recompensa, depois ele acalma. Quando essa atrao louca diminui, vem o que Fisher chama de ligao, sentimento mediado pelos hormnios vasopressina e ocitocina. Com o tempo, a importncia do sexo cai. Mas no deixa de existir.

5- SIGA O SEU CORAO
No incio de um relacionamento, os altos nveis do neurotransmissor dopamina, ligado ao prazer, fazem a ateno se focar nas caractersticas positivas da pessoa, ignorando as negativas. Isso  agravado pelo pensamento obsessivo causado pela queda de outra substncia, a serotonina. O resultado, segundo Helen Fisher,  nsia, com pulso, distoro da realidade, dependncia fsica e emocional, mudana de personalidade e perda de autocontrole. Pirao total. Queremos loucamente algum sem entender exatamente quem ele . Mas, como viver nas alturas consome tempo e energia demais para se dedicar a outras atividades, esse perodo de novidade passa  em sete meses, segundo Fisher, ou em pouco mais de dois anos, segundo Andreas Bartels, da University College de Londres. Com a paixo indo embora, a ateno se volta s incompatibilidades antes ignoradas. E a podemos seguir o corao e buscar de novo aquele delicioso frio na barriga. Assim, seguir o corao pode levar a um ciclo de prncipes encantados que viram sapos.  por isso que todo mundo tem um conhecido que est sempre de namoro novo. Essa falta de p no cho prejudica as chances de construir uma relao mais estvel. No que isso seja obrigatrio. Longe disso. Veja mais abaixo.

6- ARRUME UM NAMORADO
H bons motivos para algum evitar um relacionamento estvel  sonhos mais individuais, estabilidade financeira antes de ter filhos etc. Isso no significa que tais pessoas sejam solitrias, como verificou um estudo da Universidade Cornell, EUA. Os pesquisadores pediram a 2,7 mil solteiros que avaliassem seu contato com pais e amigos. Aps seis anos, repetiram a pergunta. Quem casou se distanciou da famlia e dos amigos. Estavam casados, tinham companhia, mas ao mesmo tempo se isolaram  o que no aconteceu com os solteiros. Outro estudo feito em seis pases com pessoas de 65 anos concluiu que, enquanto homens solteiros de fato acabam com uma rede de apoio mais restrita que os casados, com as mulheres  o contrrio. Sem marido ou filhos, solteiras se preparam ao longo da vida para evitar a solido mantendo contato com parentes e amigos. J as casadas se dedicam a marido e filhos, que nem sempre mantm contato no futuro. Ser solteiro no significa ser solitrio. Na verdade, muitas vezes pode ser o contrrio.

7- ESCOLHA UMA PROFISSO QUE VOC AME
Em 2005, Steve Jobs defendeu, em seu famoso discurso a formandos da Universidade Stanford, EUA, que eles fizessem algo que amassem. Se no tiverem encontrado, continuem procurando, disse. Mas se o jovem Steve tivesse seguido seu prprio conselho, provavelmente acabaria como um dos melhores professores do centro espiritual Zen de Los Altos, afirma Cal Newport, autor do livro So Good They Cant Ignore You (to bom que no podem ignor-lo, sem verso no Brasil). Na faculdade, seu interesse no eram os negcios nem a eletrnica, mas histria e misticismo oriental. Em pouco tempo, Jobs abandonou os estudos, foi para um templo hare-krishna, fez retiro espiritual na ndia. Isso tudo influenciaria sua maneira de ver o mundo e de conduzir a Apple, claro, mas a empresa no brotou dessa sua paixo. Ela nasceu da sorte de montar com um amigo talentosssimo, Steve Wozniak, um esquema de montagem de placas de circuito que funcionou e decolou graas ao estilo visionrio e vendedor de Jobs. O fato  que, exceto o caso dos poucos que nasceram para a coisa certa, para os demais esse conselho no vale nada  e por vrios motivos. Ainda que voc admire uma profisso, isso no significa que tenha talento para ela, nem que na prtica ela seja do jeito que voc imagina ou que ela v trazer boas oportunidades profissionais. Muitos agrnomos acabam atuando como vendedores de agrotxicos, arquitetos fazem mais reforma do que projetos bacanas, fotgrafos registram mais imagens para cardpios do que para editoriais de moda, engenheiros no constroem nada alm de planilhas. O incio de uma carreira fantstica pode no parecer nada fantstico, diz Newport. Essa realidade bate de frente com um mundo fantasioso em que existe um trabalho perfeito, que voc amar logo de incio. A mora o problema. A busca pela paixo no que faz pode levar a uma desiluso precoce. Pulando fora cedo, no d tempo para desenvolver habilidades e ficar bom naquilo. Sem se tornar bom, as chances de brotar uma possvel paixo pelo trabalho vo pelo ralo.

8- NO FIQUE COM GENTE DO TRABALHO
O caminho mais comum para comear um relacionamento  se apaixonar por um colega  seja de estudos, seja de trabalho , concluiu uma pesquisa do psiclogo Ailton Amlio, da USP. E h boas razes para isso. Um relacionamento no amoroso permite conhecer melhor um futuro parceiro, seja para descobrir caractersticas que no se observam  primeira vista, seja para derrubar a fachada que pessoas criam para parecerem o par ideal. O convvio no trabalho ou na aula permite conhecer pessoas mais reais do que em uma festa.

ONDE SURGE O AMOR
Em que situaes um casal se forma
37% - lugares onde pessoas j se conheciam (escola, faculdade, trabalho, academia)
32% - intermdio de um conhecido em comum
20% - flertes com desconhecidos
6% outras situaes
1% - algum servio de relacionamentos
4% encontro acidental

Fonte: o mapa do Amor, de Ailton Amlio


9- NO DEIXE PARA AMANH O QUE VOC PODE FAZER HOJE
Trabalhar demais emburrece. Um estudo da University College London com mais de 2 mil funcionrios pblicos ingleses concluiu que, comparando testes de cognio feitos em um intervalo de cinco anos, pessoas que trabalham mais de 11 horas por dia tiveram uma queda maior de memria de curto e longo prazo, raciocnio abstrato, criatividade e soluo de problemas em relao a quem segue uma jornada de oito horas. Uma razo para isso  que quem trabalha por muitas horas deixa de praticar outras atividades importantes para a sade mental. Mas o que fazer se a carga de trabalho for muito grande? Bom, a resposta no est em quanto, mas em como se trabalha. Passar muitas horas na labuta no  sinnimo de produtividade. Pode ser, na verdade, o contrrio. Workaholics trabalham mais no por produzirem mais e melhor, mas porque precisam de mais tempo para produzir a mesma coisa, seja por serem controladores que no conseguem trabalhar em equipe, seja por estabelecerem expectativas irreais. Isso, segundo o psicoterapeuta Bryan Robinson, autor de Chained to the Desk (acorrentado  mesa, sem verso para o Brasil),  um tiro no p. Eles criam estresse e desgaste para si e para seus colegas, causando baixo estado de nimo, falta de harmonia, conflito interpessoal, baixa produtividade, perda de criatividade e de cooperao e absentesmo por conta de doenas relacionadas ao estresse. Quem  viciado em trabalho j sentiu isso. O melhor, portanto, no  fazer tudo hoje, mas estabelecer prioridades, delegar tarefas  e no abrir mo de sua vida. S assim voc estar 100% amanh.

AS QUATRO FACES DOS WORKAHOLICS
O IMPLACVEL - No sabe dizer no. Assume mil responsabilidades sem conseguir priorizar o que importa nem delegar tarefas a outras pessoas. Com tanta coisa a fazer em pouco tempo, acaba deixando passar muitos erros.
O BULMICO - Por ter autoestima baixa, cria expectativas altas demais de como devem ser seus resultados. Isso lhe d medo de comear projetos e, quando comea, trabalha  exausto, extremamente preocupado com o risco de cometer erros.
O DESATENTO - Tem prazer com muitas ideias e, assim, comea uma imensido de projetos. Porm, sente-se enfadado quando precisa lev-los adiante. Acaba fazendo tudo sem muito empenho, pensando em outras coisas.
O DEGUSTADOR - Detalhes o preocupam tanto que ele acaba paralisado, reescrevendo a mesma frase, rechecando algo. Como acha que ningum ser cuidadoso como ele, no consegue passar o basto. E a, voc se identificou com algum perfil?

10- SEJA MAIS EXTROVERTIDO
Voc quer crescer na sua carreira, mas acha que  introvertido demais para ter um cargo de liderana? Balela. Embora esse tipo de vaga tenda a favorecer personalidades dominantes e expansivas, lderes extrovertidos tm uma fraqueza, segundo Adam Grant, professor de administrao da Universidade da Pensilvnia, EUA. Em ambientes com funcionrios que tomam mais iniciativa, eles se sentem ameaados. Por isso tentam ser o centro das atenes e podem empurrar decises goela abaixo. J lderes introvertidos tendem a ouvir mais calmamente e a ser mais receptivos a sugestes quando o time sob sua responsabilidade  mais assertivo.

11- NO PERCA TEMPO COM FOFOCA
Nem toda fofoca  maliciosa. Quando consiste em avisar sobre pessoas pouco confiveis, ela promove a cooperao e desestimula o comportamento antissocial. Foi o que concluiu uma srie de experimentos da Universidade de Berkeley, EUA, com 200 pessoas que participavam de jogos de cooperao envolvendo dinheiro. Quando um participante via outro jogando por interesse prprio, sentia-se frustrado e tinha os batimentos cardacos acelerados. Ao compartilhar isso com outras pessoas no jogo, sua frustrao diminua e abatimento cardaco desacelerava. E, de quebra, ele barrava estratgias egostas no jogo. Ou seja, espalhar que h algum fazendo algo errado diminui a ansiedade e melhora o sentimento de cooperao.

12- CURTA O MOMENTO
H uma razo simples para que sexta-feira seja mais legal do que domingo  s vezes esperar por alguma coisa  melhor do que experiment-la. A razo bsica  a dopamina (de novo ela). Quando recebemos o sinal de que acontecer algo prazeroso,  liberada em nosso crebro uma dose de dopamina  e assim sentimos prazer antes da recompensa. Feche os olhos e pense agora no Carnaval chegando. Ou em outra coisa que d prazer, se voc no for do Carnaval. At a, nada de novidade. Mas, segundo o neurocientista Robert Sapolsky, de Stanford, estudos com macacos mostram que a dose de dopamina atinge seu pico no quando h a certeza, mas quando h 50% de chance de que o sinal leve  recompensa.  a razo por que uma partida do Brasil contra o Japo  muito menos esperada do que uma contra a Espanha. Afinal, teoricamente,  mais difcil saber se ganharemos da Espanha do que do Japo. Melhor do que fazer  aguardar. E melhor do que aguardar  ter esperana. Torcedores que o digam.

13- SIGA A SUA INTUIO
A ideia que rendeu ao psiclogo Daniel Kahneman o prmio Nobel de Economia em 2002  simples: a mente funciona com dois sistemas, um intuitivo e outro racional. E, contrariando o senso comum, quem manda na maioria das nossas escolhas  a intuio. Isso porque, seja na savana africana, seja em uma metrpole moderna, precisamos tomar muitas decises em muito pouco tempo. Se parssemos para pensar em cada problema, acabaramos mortos  ou por um leo ou por um carro. Afinal, o raciocnio precisa de tempo e de informaes que nem sempre esto  disposio  e em algumas situaes no podemos apenas dizer no sei. J a intuio oferece respostas imediatas substituindo uma questo complexa pela associao mais prxima. O problema  que isso nos leva a erros crassos. Imaginemos Bruno, um homem tmido de 30 anos, organizado e detalhista.  mais provvel que ele seja um campons ou um bibliotecrio? Se levarmos em conta que o Brasil tem mais de 5 milhes de estabelecimentos agrcolas e menos de 5 mil bibliotecas, a chance de ser campons  bem maior, certo? Mas a intuio diz o contrrio  afinal, as caractersticas de Bruno se encaixam perfeitamente no esteretipo de bibliotecrios. Bom, na vida encaramos dilemas bem mais relevantes do que a profisso de Bruno  um pedido de demisso, outro de casamento, onde investir, o que vestir... Quando voc estiver diante de uma questo importante, o melhor  deixar a intuio de lado e colocar a cabea para funcionar. Porque ela  cega, burra e medrosa.

OS CINCO TPICOS DO ERRO
Por que a intuio pode passar a perna em ns.
PRIMEIRAS IMPRESSES - Por mais que se possa provar o contrrio, elas ficam.
ESTERETIPOS - A intuio se baliza por representaes  se algo se encaixa no modelo de um grupo, logo  parte dele.
EMOES - Quando uma opo traz medo (como voar de avio), ela parece ser mais perigosa que uma alternativa de maior risco (como andar de carro).
MEMRIA PESSOAL - Uma histria bem contada  lembrada com mais facilidade, ainda que possa ser fictcia ou pouco comum.
COINCIDNCIAS - Duas coisas que acontecem juntas parecem ter uma relao de causa e efeito, ainda que isso no seja verdade  tal como o frio e a gripe.

14- PENSE POSITIVO
No precisa querer ser otimista  j somos inatamente predispostos a isso. S para ter ideia, em uma pesquisa feita nos anos 80 com estudantes americanos, 93% se consideravam melhores motoristas do que a mdia  ainda que seja impossvel que a maioria das pessoas seja melhor do que a maioria das pessoas. O problema  que nosso crebro  bem seletivo na hora de aprender fatos  ele codifica as informaes desejveis, mas no as indesejveis. Se ouvirmos falar do sucesso fortuito de Eike Batista, por exemplo, pensaremos que isso tambm pode acontecer conosco  ignorando que as condies que o levaram ao sucesso no so to simplesmente reproduzveis. J quando vemos informaes negativas como taxas de risco de cncer, divrcio e acidentes, no incorporamos essas informaes  ou ao menos achamos que nosso risco  menor. Quem acha, de verdade, que pode sofrer um grave acidente a qualquer hora? A neurocientista Tali Sharot, da University College Londres, pediu para que voluntrios estimassem qual o risco de passarem por uma srie de eventos negativos  cncer, divrcio, demisso, pedra nos rins... Depois, deu-lhes as estatsticas reais e perguntou novamente qual o risco. Se uma pessoa respondesse que as chances de ter uma lcera era de 25% e depois fosse informada que a estatstica correta  de 13%, ela tenderia a se aproximar da realidade, atualizando o risco pessoal para algo como 15%. J quem respondesse, por exemplo, 5%, aumentaria pouqussimo o risco pessoal  ou simplesmente ignoraria a informao passada. Ao verificar imagens de ressonncia magntica do crebro dos participantes, Sharot viu que quando a realidade era melhor que a previso, havia uma maior ativao de partes envolvidas no planejamento e anlise de consequncias futuras. Quando a realidade era pior, essa ativao era muito menor. Ou seja, aprendemos o que nos convm. Esse otimismo inato nos serve por razes simples  ele nos poupa de antecipar a dor e as dificuldades que o futuro pode trazer. Tudo maravilhoso. Mas h um problema. Isso nos faz subestimar nossos riscos e acabar tomando decises imensamente tolas. Pessoas pem seu dinheiro em esquemas financeiros duvidosos e fazem sexo sem proteo, governos subdimensionam os gastos em projetos, e bancos fazem emprstimos sem ter a certeza de que pessoas sem renda e sem bens possam honrar suas dvidas. O que fazer ento? Usar duas ferramentas com as quais evolumos  otimismo e pessimismo, ao mesmo tempo. Ter um p em cada um  o melhor para no cair em enrascadas.

NO SE REPRIMA
No pense em sexo. Mas, se obedecer, provavelmente voc vai pensar mais ainda. Isso porque, ao tentarmos controlar a mente, dois processos ocorrem ao mesmo tempo, segundo Daniel Wegner, da Universidade Harvard, EUA. O operacional, que segue a ordem, e o irnico, que inconscientemente checa se o operacional est funcionando. O problema  que o processo operacional  limitado. Se voc estiver estressado, ele baixa a guarda e o irnico assume. E a, pimba. Pensou em sexo, n?

15- SEJA PERSEVERANTE, VOC CONSEGUIR
O mecanismo bsico da motivao  o circuito de recompensas do nosso crebro. Quando voc tem uma expectativa e percebe no ambiente algum sinal de que conseguir esse objetivo, h uma liberao do neurotransmissor dopamina, aquele que causa prazer. J quando voc espera algo e no recebe, o nvel de dopamina cai tremendamente  o que d uma tristeza forte, tal como quando voc tem vontade de doces (ou de sexo, cigarro, aumento de salrio, fuar a vida de algum no Facebook...), mas no tem nada disso por perto. Se voc repetir para si mesmo seja algo, o resultado ser bvio  frustrao em cima de frustrao. Voc no virar chefe, no enriquecer, no alcanar o que considera sucesso e acabar deprimido. O que fazer ento? Estabelea pequenos passos factveis. A cada pequeno resultado conquistado, ter a dose necessria de motivao para dar o passo seguinte para um objetivo maior  e realista.

16- PARA DE SE REMOER
A resposta da depresso pode estar em Darwin, que no fazia nada em um a cada trs dias desde a morte da filha. Farei pouco mais que me contentar em admirar os avanos dos outros disse em sua autobiografia. No foi nada disso, o que se reflete na hiptese defendida pelo psiquiatra Andy Thompson e o psiclogo evolucionista Paul Andrews. Segundo eles, na maioria dos casos, depresso  uma resposta evolutiva engatilhada por um problema complexo, como perder a filha. Perde-se o prazer em trivialidades que possam atrapalhar um projeto maior. Em vez de incapacitar, o sofrimento acelerou sua pesquisa  e Darwin chegou  teoria da evoluo. E ele no  um caso isolado. Escritores e artistas tm at dez vezes mais depresso que a populao em geral, diz a Associao Americana de Psiquiatria.

17- OUA MEU CONSELHO
Quer ajudar algum a tomar a melhor deciso? Oferea informaes em vez de conselhos, concluiu um estudo da Universidade George Manson, EUA. Psiclogos testaram em centenas de estudantes quatro tipos de intervenes  conselhos a favor e contra uma opo, fornecimento de informaes que contribuam para a escolha, e ajuda a encontrar meios para a deciso. Dessas estratgias, trazer informaes novas foi considerado o melhor dos mtodos. Isso porque o conselho tem um lado ruim  ele faz a pessoa sentir que perdeu um pouco de sua independncia ao fazer a escolha. J informaes no s mantm o senso de autonomia e aumentam a confiana na escolha prpria como tambm trazem ajuda para decises futuras na mesma rea. Portanto, se for sair distribuindo conselhos por a, d tambm informaes a respeito, como as dessas pginas. E, a sim, feliz ano novo.

- PARA SABER MAIS -
Willpower Rediscovering the Greatest Human Strength. Roy Baumeister, Penguin Presa 2011
Rpido e Devagar  Duas Formas de Pensar. Daniel Kahneman, Objetiva. 2012


2. ATUALIDADES  O HOMEM QUE MATOU BIN LADEN
Ele invadiu a manso do terrorista mais procurado do mundo. Disparou o tiro que o matou. E hoje vive escondido  porque revelou a histria toda.
REPORTAGEM / Aurelio Amaral
EDIO / Bruno Garattoni
DESIGN / Rafael Quick
ILUSTRAO / Fabricio Lopes

     Tentem no acertar o filho da puta no rosto - disse um dos seals (soldados de elite das Foras Armadas americanas). Mas se estiver escuro e eu s puder ver a cabea, no vou esperar para que ele detone um colete-bomba, argumentou o outro. Se tiverem chance, atirem no peito, ponderou um terceiro. Esse terceiro homem  o ex-oficial Matt Bissonnette, 36 anos. Depois de participar de combates no Iraque e no Afeganisto e ser condecorado seis vezes, ele foi recrutado para uma das misses militares mais ousadas de todos os tempos: a captura de Osama bin Laden, em 2011. A operao deu certo, ou quase (Bin Laden foi morto). Mas, irritado com o governo americano, Bissonnette deixou as Foras Armadas  e escreveu um livro contando em detalhes como tudo aconteceu.
     A histria comea na Carolina do Norte. Ao longo de duas semanas, um grupo de 24 seals foi preparado para invadir a manso onde Bin Laden supostamente estaria escondido, no Paquisto. A misso foi treinada e ensaiada  exausto  os americanos chegaram at a construir uma reproduo em tamanho real da casa. Mas, na hora da verdade, tudo aconteceu de um jeito totalmente diferente do planejado.
     Abbottabad, Paquisto, 2 de maio de 2011. No meio da noite, dois helicpteros Black Hawk UH-60 se aproximam da manso. Est completamente escuro, e os soldados usam culos de viso noturna. Plano: invadir o terceiro andar da casa, onde Bin Laden supostamente estava dormindo. Parte dos militares desceria por uma corda, e a outra daria cobertura por terra. Como havia uma academia militar por perto, o trfego areo era comum na regio e o barulho dos helicpteros no despertaria suspeitas.
     S que o primeiro Black Hawk sofreu uma pane e comeou a cair  e por pouco a misso no terminou antes de comear. Eu senti pavor. Sempre imaginei que morreria num tiroteio, no num desastre areo, conta Bissonnette. O piloto conseguiu girar o helicptero e jog-lo em cima do muro da manso, amortecendo a queda. Os seals sobreviveram. Mas a estratgia inicial morreu ali. Era hora de aplicar o plano B: invadir a manso por baixo. Isso significava entrar pela casa de hspedes, passar por um corredor que levava  casa principal e subir as escadas at chegar ao terceiro andar. Os agentes conheciam a casa de Bin Laden nos mnimos detalhes (sabiam at se cada porta abria para dentro ou para fora), mas agora o risco seria muito maior.
     Ao entrar, eles encontraram os irmos Abrar e Ahmed al-Kuwaiti, funcionrios de Bin Laden, que estavam na casa de hspedes. Ahmed abriu fogo contra os seals, que reagiram  e o mataram. Abrar foi fuzilado junto com a esposa. Trs mortos, e a operao mal tinha comeado.
     Os americanos chegaram  casa principal, cujo primeiro andar estava vazio. No segundo, eles acharam o filho mais velho de Bin Laden, Khalid  que foi morto com um tiro no rosto antes que pudesse esboar qualquer reao. Os seals comearam a subir a escada rumo ao terceiro andar. Eles no tinham pressa. Ao contrrio do que acontece nos filmes, no corriam nem abriam portas bruscamente lanando granadas. Caminhavam devagar e em silncio. Bin Laden, a essa altura, j sabia da presena inimiga  e provavelmente estava pronto para se defender.
     Meus sentidos estavam superexcitados. Eu tentava escutar o barulho de uma arma sendo carregada ou os passos de algum, diz Bissonnette no livro. Os americanos estavam em maior nmero, equipados com culos de viso noturna e armamento pesado. Mas, se Bin Laden ou algum segurana comeasse a atirar, certamente a equipe sofreria muitas baixas. Havia ainda outro risco: para tentar proteger Bin Laden, a mulher e os filhos  que viviam com ele no mesmo quarto  poderiam detonar coletes-bomba e explodir a casa inteira, matando todo mundo.
     A tenso e o silncio eram absolutos. Ao subir os ltimos degraus da escada, os seals viram uma cabea espiar por trs de uma porta. No dava para reconhecer direito o rosto da pessoa. Ser que Bin Laden arriscaria se expor dessa forma? Naquela hora, o primeiro atirador da fila no parou pra pensar. Disparou cinco tiros de fuzil, dos quais pelo menos um pegou na cabea daquele homem. A equipe avanou para o quarto e encontrou o sujeito cado no cho, ao p da cama. Ele vestia urna camiseta sem mangas, calas largas marrons e tnica marrom. No estava armado e no tentou reagir. Estava muito ferido. Ele j estava  beira da morte, se contorcendo. Eu e o outro invasor apontamos nossos rifles para o peito dele e fizemos vrios disparos, at ele parar de se mexer, relata Bissonnette. Duas mulheres e trs crianas assistiam  cena e choravam histericamente. Era o fim de Osama bin Laden.
     Mas, por alguns minutos, os agentes ainda no estavam certos disso. Os ferimentos de bala tinham afundado o crnio e deformado o rosto do cadver, que estava completamente ensanguentado  e irreconhecvel. A altura, 1,95 m, conferia com a de Bin Laden. Mas o semblante era de um homem mais jovem do que se imaginava. E ele no tinha a barba grisalha pela qual o terrorista era conhecido  a barba era preta.
     Para ter certeza, Bissonnette limpou o sangue da face, sacou sua cmera digital e, como em um episdio de CSI, fotografou o cadver de diferentes ngulos. Do rosto, fotografou principalmente o perfil. O nariz comprido e delgado, marca inconfundvel de Bin Laden, tinha permanecido intacto. E era a evidncia mais clara de que, sim, tinham matado o homem certo. 
     Mesmo assim, a equipe s comunicou oficialmente a Casa Branca depois de conferir vrias vezes os retratos e de obter a confirmao de uma das crianas e uma das mulheres. Os seals coletaram saliva do morto para fazer testes de DNA e tentaram at extrair uma amostra de medula ssea  fincaram diversas vezes uma seringa na coxa de Bin Laden para retirar a amostra de dentro do fmur, mas as agulhas quebraram. Desistiram.

ARMAS SEM MUNIO
     O tempo estava acabando. Do comeo da operao at a morte de Bin Laden, haviam se passado 15 minutos. Quanto mais tempo eles demorassem, maiores as chances de chegarem reforos da Al-Qaeda ou mesmo a policia e o exrcito paquistaneses, que no sabiam da operao. Alm disso, o Black Hawk avariado tinha sido programado para explodir  e eles teriam de fugir no helicptero que sobrou antes que isso acontecesse. Os atiradores deram uma vasculhada rpida no escritrio, localizado no segundo andar, onde recolheram pen drives, cartes de memria e computadores. No quarto, encontraram um vidro de tintura preta  o que explicava a cor da barba. O guarda-roupa era impecavelmente organizado. Todas as roupas estavam dobradas e empilhadas e dispostas com espaos regulares entre si. Numa prateleira sobre a porta, finalmente acharam o que esperavam ver nas mos de Bin Laden: um fuzil AK47 e uma pistola  ambos descarregados. Isso mesmo. Sem cartuchos. Bin Laden sabia que estavam vindo para captur-lo ou mat-lo, mas escolheu no lutar. Ele estava pronto para travar a guerra [contra os EUA] que propunha? Eu acho que no. Se fosse assim, teria pelo menos pegado a arma e se defendido, teoriza Bissonnette.
     Mas, se Bin Laden no tentou reagir, por que foi executado com vrios tiros no peito? Antes da misso, um advogado  que Bissonnette no sabe dizer se era da Casa Branca ou do Pentgono  se dirigiu aos seals e foi claro: o objetivo da misso no era o assassinato. Se ele no representar ameaa, os senhores devero apenas det-lo. S que essa orientao dificilmente seria cumprida. Segundo Bissonnette, os seals estavam irritados com as regras impostas pelo governo Obama  que implantou medidas para tentar coibir a violncia militar no Iraque e no Afeganisto. Quando trazamos prisioneiros, tnhamos mais duas ou trs horas de trabalho com a papelada. A primeira pergunta que faziam aos combatentes presos era: Voc sofreu abuso?. Uma resposta afirmativa acarretava uma investigao e mais papis. A tropa de elite no tinha mais pacincia para direitos humanos  principalmente os de Bin Laden.
     Os seals embarcaram no helicptero para voltar a uma base militar americana em Jalalabad, no Afeganisto, deixando para trs as mulheres e crianas que restaram na casa. Elas corriam o risco de se ferir com a exploso do helicptero defeituoso, mas os americanos simplesmente ignoraram esse fato. No tivemos tempo para ajudar, diz Bissonnette. Segundo ele, um dos oficiais foi sentado sobre o cadver de Bin Laden na viagem de volta. Isso contraria o discurso oficial do governo dos EUA  de que o corpo teve tratamento digno antes de ser sepultado no mar.
     No hangar da base militar, uma agente da CIA que havia passado os ltimos cinco anos tentando encontrar pistas do paradeiro de Bin Laden aguardava a chegada da tropa. Ao ver o morto, ela chorou. Os atiradores, que haviam passado os dez anos anteriores em misses no Oriente Mdio por causa daquele mesmo homem, no. Ns vamos gente morta o tempo todo. Ns convivamos com essa feiura, e uma vez terminado o servio no pensvamos mais no assunto. Mesmo que o servio fosse matar o homem mais procurado de todos os tempos. 

PARA SABER MAIS
No H Dia Fcil
Mark Owen e Kevin Maurer, Editora Paralela, 2012.

IDENTIDADE REVELADA
Matt Bissonnette, 36 anos, se aposentou logo aps a Operao Lana de Netuno (nome oficial da misso que matou Bin Laden). E escreveu o livro No H Dia Fcil, no qual conta os detalhes da operao, sob o pseudnimo de Mark Owen. Dias antes da publicao do livro, teve sua identidade revelada pela rede de TV americana Fox News. A informao foi confirmada pelo Departamento de Defesa norte-americano, e o Pentgono ameaou processar Bissonnette. O livro virou o mais vendido dos EUA. Radicais islmicos ameaaram matar Bissonnette, que hoje vive escondido.


3. COMPORTAMENTO  CINQUENTA TONS DE ROSA
As mulheres estudam mais, trabalham amis e chefiam cada vez mais famlias. Ento por que um livro no qual uma jovem apanha de um milionrio possessivo vendeu 65 milhes de cpias ao redor do mundo? Entenda em que p foram parar os relacionamentos modernos.
REPORTAGEM / carol Castro
EDIO / Karin Hueck
DESIGN / Rafael Quick
FOTO / Dulla

     Christian Grey e Anastasia Steele vivem em mundos diferentes. Ele tem dinheiro, carros, uma empresa de sucesso, manses e iates. Ela s tem um fusca e um diploma de jornalismo. Ainda assim se encantam um pelo outro logo nas primeiras pginas do best-seller mundial Cinquenta Tons de Cinza. Levou poucos dias para o Sr. Grey (como exige ser chamado) tirar a virgindade de Anastasia, em sesses de sexo arrebatador suficiente para deix-la tremendo como vara verde. E oferecer um contrato de amor. Sim, um contrato. Alm da aparncia fsica impressionante, cabelo revolto acobreado e olhos cinzentos que olham com astcia Christian Grey tambm tem mania de controle  precisa que sua parceira aceite ser sua submissa, comer, vestir e fazer tudo o que ele ordenar. E aprovar sexo sadomasoquista. Christian Grey  sdico  mistura prazer a dor, romantismo  aspereza.  capaz de levar Anastasia s alturas, literalmente (ele pilota um avio tambm). Mas basta uma virada de olhos para que ela leve uma surra. Ela pode estar a trs mil quilmetros de distncia, sem avisar por onde anda, e ainda assim se deparar com ele no mesmo bar. Stalker  pouco. Mas Anastasia no liga para isso. Ela e outras 65 milhes de mulheres em todo o mundo passaram por cima dessas esquisitices e abusos (para nem falar da qualidade literria questionvel), e se apaixonaram pelo Sr. Grey  e pela trilogia de E.L. James, Ciquenta Tons de Cinza. Os livros bateram todos os recordes de venda. Por aqui, os trs j venderam dois milhes de cpias. Tanta paixo no se justifica apenas pelas cenas picantes do casal  ou pelas 20 vezes em que Anastasia Steele chega ao orgasmo em pouco mais de 400 pginas. Romance ertico  coisa antiga e os contos do tipo Sabrina existem aos montes nas bancas de jornal. Mas Christian Grey tem algo a mais. Ele soma  figura do macho provedor um ingrediente vital: o amor. A autora faz essa ligao entre amor e dinheiro. Hoje as mulheres rejeitam essa submisso e buscam parceiros mais igualitrios. Mas o livro permite a elas brincar com essas velhas maneiras que um dia foram atraentes, conta Stephanie Coontz, historiadora social do Evergreen State College, em Washington. Para entender por que essas velharias ainda tm apelo entre as mulheres modernas,  preciso olhar o que aconteceu com os relacionamentos nos ltimos anos e entender o novo papel que elas assumiram.

BLOCO DO EU SOZINHO
     H mais de meio sculo, a fase de mulheres submissas,  la Anastasia Steele, ficou para trs. Foi depois da Segunda Guerra, quando a populao de homens andava escassa e o hemisfrio norte precisava ser reconstrudo, que elas foram convocadas para sair do lar e entrar no mercado de trabalho. J em 1985, segundo o Banco Interamericano de Desenvolvimento, mais de 50% da fora de trabalho na Amrica Latina vinha das mentes e mos femininas. No Brasil, entre 1976 e 2007, mais de 30 milhes de mulheres entraram no mercado de trabalho.
     De l para c, o salrio delas tambm cresceu mais do que o deles. Segundo o IBGE, entre 2000 e 2010, o rendimento mdio das brasileiras cresceu quase trs vezes mais do que o dos homens (apesar de elas ainda ganharem 30% a menos do que eles com o mesmo nvel de instruo). Cada vez mais, elas conseguem cuidar da prpria vida, sem depender de um marido. Em 1960, uma mulher com ensino superior recebia menos do que um homem com apenas o ensino mdio. Nessas condies, casar se tornava um grande investimento. Hoje isso mudou, diz Coontz. Com a carteira mais gordinha, casar s se for por amor  um amor saudvel e olhe l. Seno, melhor ficar solteira.
     E  bem isso que tem acontecido. Elas (e eles) tm passado muito mais tempo solteiras (a exceo est nas famlias de baixa renda  com pouco estudo, fica mais complicado conseguir um salrio que pague todas as contas; nesses casos, casar ainda funciona como suplemento financeiro). Segundo o IBGE, homens se casam, em mdia, aos 29 anos, enquanto mulheres dizem sim pela primeira vez aos 26 anos. H apenas 12 anos, essa mdia era dois anos mais baixa. Se antes era uma aberrao, hoje as pessoas aceitam numa boa a escolha de ficar sozinho. Numa pesquisa americana realizada em 1957, 80% das pessoas classificavam como doentes ou esquisites os solteiros convictos. Em 1975, s 25% deles ainda pensavam assim. As pessoas no querem mais se frustrar e entrar num relacionamento que talvez no funcione. Agora isso  aceito. Antes os solteiros, principalmente as mulheres, sofriam preconceito, diz Isabel Gomes, especialista em psicologia social da USP. Por aqui, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domiclios, nos ltimos dois anos, o nmero de pessoas que foram morar sozinhas aumentou em 800 mil.
     Com essa mudana demogrfica, surgiram at os ativistas da causa solteira.  o caso da americana Bella de Paulo, psicloga e professora da Universidade da Califrnia, e uma das principais defensoras do direito de ser solteiro. Ela se intitula solteira de corao  o tipo de pessoa que escolhe estar sozinha. A luta dela  estender os direitos dos casados (por exemplo, ganhar descontos no plano de sade) aos solteiros. Existem mais de mil benefcios federais nos EUA que s incluem pessoas casadas, explica. Outra coisa que ela gostaria de mudar  a previdncia social. Assim como no Brasil, se uma pessoa morre, o dinheiro da aposentadoria pode, temporariamente, ser transferido para os dependentes (cnjuge, filhos ou pais). Se a pessoa for solteira e sem filhos ou pais, fim da histria  o dinheiro volta para os cofres do governo. Ela gostaria de um final diferente. Quando eu morrer, meu dinheiro vai ficar com o sistema, enquanto algum casado pode passar para o marido. Por que no posso passar para um amigo prximo?

X, TRASTE
     Com mais dinheiro no bolso e menos vontade de se casar, as mulheres ficaram tambm mais seletivas na hora de buscar um parceiro. Como se tornaram capazes de se sustentar, mesmo fora de um casamento, elas aumentaram o padro de qualidade nas relaes, justifica Stephanie Coontz. Se for para casar, melhor ter certeza de que o marido vai manter o emprego e dividir as contas. Caso contrrio,  melhor ficar sozinha. A lgica deixou de ser procuro marido que possa me sustentar e passou para procuro marido que eu no tenha de sustentar. A escolha criteriosa elevou tambm a expectativa da beleza fsica, assunto que antes preocupava mais aos homens. Pesquisadores da Universidade York, no Canad, perguntaram a 12 mil pessoas quais eram os atributos mais importantes em um parceiro. O resultado foi conclusivo: pela primeira vez, elas afirmaram que se preocupam mais com a beleza do que eles.
     Bonitos, interessantes, com uma vida financeira estvel  e educados. A lista de atributos desejveis no para de crescer. E com motivos; pela primeira vez, elas tambm estudam mais do que eles, em todos os nveis. Segundo o Ministrio da Educao, mais de 55% das novas matrculas em cursos superiores so preenchidas por mulheres  e 60% dos diplomas so entregues a elas. Alm disso, elas passam mais tempo nas escolas. Os dados do IBGE mostram que homens estudam em mdia por 9,6 anos enquanto que mulheres com a mesma faixa etria passam 10,2 anos dentro das salas de aula. A consequncia dos anos de estudo a mais  imediata: elas j esto levando a melhor na hora de concorrer aos empregos. Nos EUA, as americanas j superaram os americanos em cargos gerenciais. E mais: em quase 40% dos casamentos, as esposas ganham mais do que os maridos. Os homens esto tendo de rebolar para ficar  altura das mulheres  ou pelo menos para atender as expectativas altas delas. Nesse contexto, um rapaz bem-apessoado, abastado e com disposio para um relacionamento srio, como o Sr. Grey, passa a ficar mais interessante (muito mais do que ele de fato ).

ONDE EST WALLY?
     Mas, ironia da vida, com tantas mulheres boas disponveis (educadas, bem-empregadas, autossuficientes etc. etc.), os homens, em vez de amarrar seus burros na sombra, resolveram cair na farra. Para assumir um relacionamento srio, s se valer muito a pena  seno  melhor aproveitar a oferta abundante de mulheres de qualidade. E h de fato uma oferta em excesso por a: no Brasil, existem 1,2 milho de mulheres a mais do que homens entre os 20 e 45 anos. Essa desigualdade reflete no comportamento masculino. A origem biolgica voc j conhece; no reino animal, o objetivo dos machos  se reproduzir com o maior nmero de fmeas possvel para garantir que seus genes sejam transmitidos. J s fmeas cabe o papel de escolher o par mais forte ou interessante socialmente para a procriao. Monogamia  inveno rara na natureza, serve para ajudar na criao e sobrevivncia dos filhos.
     Felizmente, no respondemos apenas a genes e impulsos biolgicos na hora de escolher nossos parceiros. Infelizmente, no entanto, os impulsos sociais parecem reforar o comportamento animal. Uma pesquisa feita por psiclogos da Universidade do Texas analisou relacionamentos entre homens e mulheres em um grupo de quase 10 mil pessoas de 36 culturas diferentes. E notaram uma tendncia: quando h uma diferena numrica muito grande entre os sexos, o gnero menos populoso comea a ditar as relaes. Ou seja, quando a minoria  feminina, as mulheres ganham mais valor e respeito, e usam a desvantagem numrica para criar relacionamentos estveis e famlias. Elas podem escolher melhor os parceiros  como consequncia, nessas sociedades, os divrcios so mais raros. Por outro lado, quando os homens so minoria, eles preferem a gandaia. Ficam mais promscuos e fogem de relacionamentos srios, como no mundo animal. A pouca gente resolve juntar os trapinhos  e a idade mdia para o primeiro casamento sobe. Exatamente a tendncia que se observa entre pessoas com mais anos de estudo no Brasil.
     Outra pesquisa, da Universidade de Minnesota, testou o comportamento na prtica em duas cidadezinhas na Gergia, no interior dos EUA. Separadas por pouco mais de 150 quilmetros, Columbus e Macon dividem os mesmos costumes e cultura  menos em um quesito: as dvidas. Por algum motivo, os homens de Columbus se endividavam muito mais do que os de Macon. Intrigado, o pesquisador Vladis Griskevicius decidiu fazer um teste. Primeiro, descobriu que em Macon as mulheres so maioria  existe 0,78 homem para cada uma delas. J em Columbus,  o contrrio: eles sobram  h 1,18 rapazes para cada moa. Em seguida, ele separou 205 homens das duas cidades em diferentes grupos. Todos deveriam contar o nmero de mulheres numa foto e depois escolher entre receber US$ 35 na hora ou esperar o ms seguinte e ganhar US$45. A proporo entre homens e mulheres variava em cada foto. E, na maior parte das vezes, quando o voluntrio observava uma fotografia com mais homens do que mulheres, ele preferia pegar o dinheiro imediatamente e ficar com US$ 35. Segundo Griskevicius, quando h muito macho no pedao, eles precisam se esforar mais para superar a concorrncia  e preferem garantir logo a parte que lhes cabe (seja em dinheiro, seja em mulheres). Assim, resolvem tambm gastar mais dinheiro  para bajular suas pretendentes.
     Mesmo assim, Stephanie Coontz acredita que as mulheres (e os homens tambm) esto em busca de relaes saudveis, igualitrias e com amor  alm da estabilidade financeira. Os casais que participaram de uma pesquisa de universidades americanas corroboram a hiptese. As mulheres mais felizes eram aquelas que se sentiam compreendidas pelo parceiro (apanhar no apareceu em nenhum momento na pesquisa). Dinheiro no  mais o carro-chefe de um casamento. E no faz ningum feliz. Mesmo porque se uma mulher, hoje em dia, quiser s carro, dinheiro e joia, ela pode comprar por conta prpria. Sem precisar de Christian Grey. 

MO DE OBRA FEMININA
50% era a fora de trabalho feminina na Amrica Latina, j em 1985.
60% dos diplomas universitrios so entregues a elas.
51% das vagas gerenciais nos EUA so ocupadas por mulheres.
Entre 2000 e 2010, o salrio das mulheres subiu 13,5%, enquanto o deles subiu 4,1%.

CASAMENTO
De 43 a 46% dos casamentos terminam em divrcio nos EUA.
48%  a porcentagem de solteiros no Brasil  maior do que a proporo de casados: 40%.
29 anos  a idade mdia do casamento para homens hoje em dia.
26 anos  para mulheres.
H 12 anos a mdia era de: 27 anos para homens e 24 para mulheres.
50% da populao feminina entre 25 e 29 anos est solteira na Espanha.
12% das casas no Brasil so compostas por apenas uma pessoa.

PARA SABER MAIS
Marriage, a History: How Love Conquered Marriage. Stephanie Coontz. Penguin Books, 2006.


4. TECNOLOGIA  A REVOLUO DAS IMPRESSORAS 3D
Em 1984, Charles Hull fez a primeira impressora 3D, que, em vez de tinta no papel, constri objetos camada a camada. Mas foi nos ltimos anos que ela evoluiu e barateou. E a revoluo comeou.
EDIO E REPORTAGEM / Felipe van Deursen
REPORTAGEM / Andr Bernardo
DESIGN / Ricardo Davino
FOTO / Arthuzzi

COTIDIANMETRO [a escala vai de 0 (raro como enterro de ano) at 5 (to comum quanto brigadeiro em festa infantil).]

IMPRIMA CARROS
Apresentador do programa de televiso americano The Tonight Show, Jay Leno  f de carros antigos. Em sua garagem, so mais de cem. Mas o hobby tinha um empecilho: peas antigas so raras, quando no inexistentes. Ento, Leno resolveu imprimir partes de seu Stanley Steamer 1909, um calhambeque movido a vapor. Isso a, imprimir. Ressuscitou o carro com uma impressora 3D. No  toa, o setor automotivo  dos que mais investem na tecnologia, diz Luiz Fernando Dompieri, diretor-geral da fabricante de prottipos 3D Robtec. E as impressoras no vo s dar vida a clssicos, como um Jurassic Park automobilstico. Em 2011, o Urbee foi lanado como o primeiro automvel impresso em 3D  embora s a carroceria tenha sido feita assim.  o mesmo caso do Areion, carro de corrida feito por um grupo de estudantes de engenharia belgas. Ele tem velocidade mxima de 140 km/h. Nada mal. Tentaremos fazer um carro por ano, mas no h planos para uma escala industrial, diz Joris Aerts, chefe da Formula Group T, a equipe do Areion, que corre em competies universitrias.
COTIDIANMETRO 2. J h outros carros de corrida 3D. Mas imprimir um  caro. O Areion custou 100 mil euros

IMPRIMA CASAS
Quando era pequeno, assim como tantas outras crianas de tantas geraes, o italiano Enrico Dini construa castelos de areia. Em 2007, j adulto, criou uma megaimpressora 3D que usa areia e uma cola  base de magnsio para fazer casas. No h nada de concreto, ao ou metal na obra. A D-Shape monta estruturas de at 6 metros por 6 metros, e a construo demora at quatro vezes menos tempo do que pelo mtodo tradicional. No futuro, Dini pretende construir abrigos para sobreviventes de catstrofes e casas populares para populao de baixa renda. Mas sua pretenso vai muito mais longe. Ele quer fazer casas na Lua e ajudar a concluir as obras da baslica da Sagrada Famlia, em Barcelona.
COTIDIANMETRO 3. O molde  pequeno e Dini luta por uma escala industrial. S imprimi uma casa, mas foi a primeira da histria, diz.

IMPRIMA COMIDA
Pois , j d para imprimir at comida. Bem, quase. O projeto Cornucpia, criado pelo designer brasileiro Marcelo Coelho e o engenheiro israelense Amit Zoran,  composto por uma impressora 3D de alimentos, um brao robtico para prepar-los e um mixer. O maior trabalho  colocar a comida nos 12 compartimentos da impressora. Depois, basta especificar as calorias a serem ingeridas e se  preciso misturar, aquecer ou resfriar. O equipamento, ento, usa as cpsulas dos ingredientes para moldar e preparar a comida, como um reles cartucho de impressora comum. Por enquanto, s consegui imprimir bombons de chocolate, nozes e avels. Mas imagino que, no futuro, ser possvel imprimir feijoada, acredita Coelho. Alm disso tudo, a Cornucpia pode ser operada a distncia. Saia do trabalho e imprima o jantar. Ao chegar em casa, ele estar pronto.
COTIDIANMETRO 1. O Cornucpia ainda est muito distante de substituir um forno de micro-ondas  a ltima grande inveno da cozinha, na opinio de Coelho.

IMPRIMA BRAOS MGICOS (!)
Com dois meses de vida, Emma LaVelle foi diagnosticada como portadora de artrogripose mltipla congnita, sndrome que provoca a atrofia das articulaes e compromete os movimentos. Em outras palavras, ela no conseguia levantar os braos. Paciente do hospital peditrico Alfred I. duPont, em Wilmington, Estados Unidos, ela tinha de usar uma pesada armadura que a obrigava a andar como um androide. Foi ento que dois pesquisadores do hospital, Whitney Sample e Tariq Rahman, desenvolveram o Wrex. Trata-se de um exoesqueleto robtico customizado, feito de plstico. Um brao mgico, como a prpria Emma chama. Mais simples, mais barato. Quando ela, hoje com dois anos, cresce ou quebra alguma pea,  s imprimir uma nova. Hoje em dia, tudo o que voc imaginar pode ser impresso em 3D. No campo das prteses ortopdicas, ento, as possibilidades so infinitas, diz Sample.
CITIDIANMETRO 4.  OWrex  de plstico, enquanto prteses assim costumam ser de metal  mais caro e menos prtico. Outras crianas do hospital j usam o exoesqueleto, com sucesso.

IMPRIMA RGOS
Dar fim s filas de transplante. Eis o sonho de Anthony Atala, da Universidade Wake Forest, na Carolina do Norte, EUA. Para isso, ele recriou em laboratrio a bexiga de sete voluntrios, portadores de um grave defeito congnito. Atala usou clulas das prprias bexigas dos pacientes, injetou-as em um molde biodegradvel feito em uma impressora 3D e os implantou de volta nas pessoas. Funcionou. Agora, ele quer imprimir um rim. A parte de fora do rgo j est pronta  falta a de dentro, que  mais complexa, pois engloba diferentes tipos de clulas e tecidos. No futuro, Atala pretende produzir rins sob medida para pacientes de hemodilise. Quero reciclar rins novos a partir dos rgos de doadores compatveis, diz. Mas ser que a tcnica no pode turbinar o mercado negro de rgos? Atala acha que no. A bioimpresso  uma cincia complexa que requer equipamento caro e sofisticado. No  o tipo de coisa que possa ser repetida em casa.
COTIDIANMETRO 3. Atala fez uretras, o canal condutor da urina. Mas ela e a bexiga so menos sofisticados que rins ou fgado, por exemplo.

IMPRIMA PRTESES
A equipe mdica da Universidade Biomdica de Hasselt, Blgica, implantou uma mandbula artificial em uma paciente de 83 anos. Ela voltou a respirar, falar e mastigar apenas um dia depois do implante. Feita sob medida, a mandbula de titnio pesa 107 gramas (37 gramas a mais que a natural). Em uma reconstruo normal, ela ficaria internada por dez dias, pois  mais complexo. Com o 3D, deixou o hospital em trs, diz Jules Poukens, chefe do time. Alm disso, o risco de rejeio  quase nulo. O titnio tem boa biocompatibilidade.  o material geralmente usado em implantes de quadril, explica. A mandbula artificial est orada em quase R$ 24 mil na Blgica.
COTIDIANMETRO 3. Estima-se que esse implante custaria R$150 mil no Brasil.

IMPRIMA OSSOS
Se depender da qumica Susmita Bose, da Universidade Estadual de Washington, nos EUA, a bota de gesso, que j foi muito popular entre esportistas mirins, vai virar pea de museu. Dentro de dez anos, um osso artificial sob medida segurar as pontas enquanto o natural se recupera da fratura. A tcnica j foi testada em ratos e coelhos e os resultados foram promissores. A princpio, Bose usou fosfato de clcio, mas logo reforou o material com silcio e zinco, o que duplicou a resistncia do osso de laboratrio. Mas como isso vai funcionar na prtica? Quando a pessoa der entrada no hospital, o mdico providenciar uma tomografia da rea lesionada, criar um arquivo com o molde a ser impresso e, em seguida, imprimir um osso provisrio. Quando ele for colocado junto com o osso natural, a tendncia  que o artificial funcione como uma prtese, o que ajuda o osso original a se recuperar. O osso biolgico tende a funcionar melhor em reas do corpo humano que suportam pouca carga, explica Bose. Quando o osso biolgico se recuperar da leso, o indivduo no vai precisar mais voltar ao ortopedista para tirar o gesso. O osso artificial vai se dissolver sozinho, sem deixar vestgios ou provocar danos ao organismo.
COTIDIANMETRO 3. Tratamento de osteoporose e implantes dentrios, alm de fraturas sseas, podero ser beneficiados com os ossos qumicos de Bose.

IMPRIMA REMDIOS
E se, em vez de objetos, imprimssemos molculas? Essa  a pergunta que veio  mente do qumico Lee Cronin, da Universidade de Glasgow, Esccia, durante conferncia sobre o uso do 3D na arquitetura. Logo, ele bolou um jeito de aplicar a tecnologia na criao de remdios. Quando acordar de ressaca, planeja Cronin, em vez de ir  farmcia comprar um analgsico, basta imprimi-lo  em casa. Em pouco tempo, ele desenvolveu o chemputer, em que molculas de carbono, hidrognio e oxignio fazem as vezes de tinta da impressora. Em 2012, ele comeou com medicamentos relativamente simples, como o anti-inflamatrio ibuprofeno, que ainda est em fase de testes.  Bem-humorado, Cronin admite que o conceito de impresso 3D de remdios continua no estgio da fico-cientfica, mas j vislumbra possibilidades humanitrias, como a impresso e distribuio de remdios em reas de conflito militar ou em cidades ameaadas por epidemias. Mas, e se, no futuro, mentes inescrupulosas resolverem fabricar drogas em casa? Para Cronin, criminosos no precisam de impressoras 3D para falsificar remdios e produzir drogas. Se algum quiser, j pode fazer drogas em casa usando produtos qumicos.
COTIDIANMETRO 1. O prprio Cronin admite que o estgio da tecnologia ainda  conceitual.

IMPRIMA ROUPAS
Em 2011, os vestidos 3D da holandesa Iris van Herpen figuraram entre as 50 melhores invenes da revista americana Time. Em vez de prancheta e tesoura, ela usou computador e impressora para criar roupas, sapatos e acessrios. Outra iniciativa vem do estdio de moda americano Continuum Fashion. Ele vende peas como o biquini N12, feito de nilon e sem um nico ponto de costura  caracterstica dessa possvel nova moda 3D, j que a tecnologia permite a impresso por inteiro da pea. J a linha de sapatos Strvct, da mesma loja,  impressa em borracha texturizada, com revestimento de couro. Designers de moda gostam de nilon porque  leve e barato. Mas materiais como vidro, acrlico e cermica j esto sendo usados, diz a estilista da Continuum, Jenna Fizel. A ideia  que, pela internet, o cliente possa escolher cor, tamanho e modelo que pretende levar para casa.
COTIDIANMETRO 4. As vantagens so leveza, conforto e durabilidade. A desvantagem ainda  o preo. Um par de sapatos sai por at US$900. Ainda assim mais barato do que muita grife.

IMPRIMA TECIDOS DO CORPO
Bioimpresso. Esse  o nome dado  tcnica de impresso 3D que reproduz partes do corpo, como veias, cartilagens e pele. Graas a ela, ser possvel, em alguns anos, imprimir tubos que sero usados como artrias em cirurgias de ponte de safena, cartilagens fabricadas sob encomenda para recompor articulaes de um joelho lesionado ou enxertos de pele para recuperar vtimas de queimaduras. A impresso 3D j provou seu valor ao recriar uma variedade de tecidos anatomicamente idnticos aos naturais, diz Michael Renard, vice-presidente da Organovo, empresa responsvel pela criao da primeira bioimpressora 3D, em 2010. Em pouco tempo, esses tecidos vivos funcionais podero fazer a diferena no estudo de patologias ainda pouco conhecidas e, principalmente, na avaliao da eficcia e segurana de drogas ainda em fase de testes, prev. A tendncia  que a bioimpresso decrete o fim da utilizao de ratos, coelhos e outros bichos na pesquisa clnica.
COTIDIANMETRO 2. A Universidade Cornell (EUA) j imprimiu vlvulas cardacas.

IMPRIMA VACINAS
Tudo o que eu previ aconteceu. A frase  do geneticista americano Craig Venter. Considerado o pai do projeto Genoma, ele sequenciou o cdigo gentico humano e comandou o experimento que criou, pela primeira vez, uma clula viva e sinttica, em 2010. Vida de laboratrio. Agora, ele prev a criao de uma impressora capaz de produzir vacinas. J imaginou? Em poca de campanha de vacinao, voc acessa o site do Ministrio da Sade, faz login e baixa uma vacina para gripe, plio ou hepatite B. Na teoria, tudo parece fcil e revolucionrio. Mas, na prtica, o mtodo precisa ser seguro e eficaz. Caso contrrio, um equvoco qualquer pode causar estragos bem maiores do que um HD danificado. Ser necessria uma legislao limitando a utilizao deste tipo de equipamento para determinados usos. Cabe at aos fabricantes impor limites via software ou hardware, diz Rodrigo Krug, diretor da fabricante de impressoras 3D Cliever. 
COTIDIANMETRO 0. Ainda est na especulao. Procurado pela SUPER, Venter no quis dar entrevista.

PASSO A PASSO DE UMA IMPRESSORA 3D PADRO
1- O MODELO - Antes de fabricar um objeto,  preciso ter um modelo digital. Voc pode desenhar o objeto em trs dimenses, com um programa que divide o desenho em milhares de camadas de at 0,1 mm cada. Em vez de tinta, a impressora usa materiais como plstico, borracha ou resina, e  abastecida por carretis da parte exterior da mquina.
2- O MATERIAL - O bico extrusor, ento, aplica uma fina camada da matria-prima derretida sobre uma plataforma no interior da impressora. Ela logo endurece e forma a base do objeto. A plataforma, mvel, se move para baixo. O cartucho, ento, aplica uma nova camada sobre a primeira e assim sucessivamente.
3- O OBJETO - O processo de sobreposio de camadas se repete at o objeto ficar pronto. A impresso 3D pode levar de poucos minutos a algumas horas, de acordo com o tamanho e a complexidade do produto. Depois de impresso, o objeto passa por uma fase de polimento, que inclui remoo da base e retirada de rebarbas.

A brasileira Metamquina faz impressoras como essa a preos a partir de R$ 2,9 mil.


5. ZOOM  ENTRE OS MUROS DA ESCOLA
Mesmo parecidas em estrutura, cada sala de aula guarda um universo particular. Descubra estas realidades. Saiba como anda a educao nos quatro cantos do planeta.
EDIO / Luiz Romero
DESIGN / Paula Bustamante
FOTO / Julian Germain

So sculos de histria, mas as salas de aula no mudaram muito. Mesas e cadeiras ordenadas em linhas, uma lousa, mochilas e cadernos espalhados. Tudo como voc e seus pais esto acostumados. Mesmo assim, o ingls Julian Germain acreditava que havia algo alm do visvel. E ele viajou por mais de vinte pases para tentar encontrar. Meu objetivo era mostrar de forma direta o espao e os alunos, de todas as idades, em todas as aulas, da forma mais detalhada possvel. Depois de oito anos, o fotgrafo acabou com uma coleo de 450 retratos que refletem a complexidade cultural e econmica de cada nao. Na seleo desta e das prximas pginas, que reproduz as melhores imagens do livro Classroom Portraits (retratos da sala de aula, sem edio no Brasil), alm dos registros, voc encontra dados que mostram o aspecto da educao no pas e perguntas feitas pelo prprio Julian aos estudantes. 

Foto: Aula de matemtica na escola estadual Nossa Senhora do Belo Ramo, em Belo Horizonte. 
BRASIL 
190 milhes  populao  
91% sabem ler e escrever
96% das crianas com at 14 anos esto na escola
ESCOLARIDADE
Um aluno fica em mdia 4,2 anos fora da escola
13,9 esperada
9,7 alcanada
22 alunos para cada professor no primrio

Foto: Aula de histria na Escola Pblica de Kruiplank, na cidade de Drouwenermond.
HOLANDA
16 milhes  populao  
99% sabem ler e escrever
99% das crianas com at 14 anos esto na escola
ESCOLARIDADE
Um aluno fica em mdia, 5,2 anos fora da escola
16,8 esperada
11,6 alcanada
18 alunos para cada professor no primrio

Foto: Aula de estudos islmicos na Escola Secundria de Garotas de Saar, prxima de Manama, capital do Bahrein
BAHREIN
1,3 milho  populao  
95% sabem ler e escrever
99% das crianas com at 14 anos esto na escola
16 alunos para cada professor no primrio
O que acha do seu uniforma?
37% terrvel
37% normal
14% prtico
12% legal
Voc gosta de ser fotografada?
54% sim
29% no ligo
17% no

Foto: Aula de msica na Escola Primria de Gambela, no distrito de Welisso.
ETIPIA
82 milhes  populao  
43% sabem ler e escrever
82% das crianas com at 14 anos esto na escola
ESCOLARIDADE
Um aluno fica em mdia 7 anos fora da escola
8,5 esperada
1,5 alcanada
54 alunos para cada professor no primrio

Foto: Aula de matemtica na Escola Secundria Tiracanchi, na regio de Cusco
PERU
29 milhes  populao  
93% sabem ler e escrever
98% das crianas com at 17 anos esto na escola
20 alunos para cada professor no primrio.
Qual a profisso do seu pai?
82% agricultor ou pecuarista
10% comerciante ou operrio
Voc trabalha fora da escola?
76% trabalho no campo
8% cuido da casa

Foto: Aula de matemtica no Colgio Kuramo, em Lagos, capital da Nigria.
NIGRIA
154 milhes  populao  
61% sabem ler e escrever
58% das crianas com at 14 anos esto na escola
36 alunos para cada professor no primrio
ESCOLARIDADE
Um aluno fica em mdia 3,9 anos fora da escola
8,9 esperada
5 alcanada
Quem voc admira?
32% Barack Obama

Foto: Aula de estudos internacionais na Escola Secundria de Koishikawa, em Tquio.
JAPO
128 milhes  populao  
99% sabem ler e escrever
99% das crianas com at 14 anos esto na escola
18 alunos cada professor no primrio
0% da populao ganha menos de US$ 2 por dia.

Foto: Prova de lngua bengali na Escola Surovi, em Dhaka, capital de Bangladesh
BANGLADESH
148 milhes  populao  
57% sabem ler e escrever
73% das crianas com at 14 anos esto na escola
43 alunos para cada professor no primrio
81% da populao ganha menos de US$ 2 por dia.


6. CINCIA  2045: O ANO EM QUE OS COMPUTADORES ASSUMIRO O PODER
UM COMPUTADOR VAI ESCREVER O MELHOR ROMANCE DE TODOS OS TEMPOS EM UM SEGUNDO, RESOLVER O MAIOR MISTRIO DA CINCIA EM UM DCIMO DE SEGUNDO E DESCOBRIR O SENTIDO DA VIDA, DO UNIVERSO E TUDO O MAIS EM MENOS TEMPO DO QUE VOC LEVA PARA TERMINAR ESTE PARGRAFO. MUITOS DE NS PROVAVELMENTE ESTARO VIVOS QUANDO ESSE DIA CHEGAR. O PROBLEMA  SABER COMO SER O DIA SEGUINTE...  O QUE VAMOS VER AGORA. BEM-VINDO  VERDADEIRA MATRIX.
REPORTAGEM / Salvador Nogueira
EDIO / Alexandre Versignassi
DESIGN / Fabricio Miranda
Ilustra / Fabricio Lopes

     J faz 15 anos que o Deep Blue, um supercomputador da IBM, bateu Garry Kasparov, o grande trunfo do xadrez do time da humanidade. Na poca, houve quem desse pouco crdito  inteligncia daquela mquina pelo fato de o jogo ser altamente matemtico  cincia para a qual os computadores tm aptido mais do que natural.
     Na prtica, no haveria uma grande inteligncia ali. S uma calculadora grande. Os computadores, ento, poderiam at ser geniais, mas nunca saberiam pensar como um humano. Hoje essa viso no faz mais sentido. O Watson, outro super-computador da IBM, conseguiu vencer em 2011 os dois melhores jogadores humanos no Jeopardy, um garne show da TV americana. Trata-se de um jogo de perguntas e respostas que exige dos participantes uma baita habilidade com linguagem. So questes do tipo Esse objeto, mesmo quando quebra, est certo duas vezes por dia. Qual  o objeto?. Um relgio, respondeu Watson, com a mesma rapidez com que uma calculadora d um resultado. E foi assim com outras dezenas de perguntas nessa linha. Isso no aconteceu, note bem, porque algum cientista colocou aquela informao do jeito certo, diz o americano Ray Kurzweil, um dos mais clebres especialistas em inteligncia artificial. De fato. Tudo o que Watson fez antes de participar do jogo foi ler milhares de livros e enciclopdias  inclusive a Wikipedia, embora ele no estivesse conectado  internet na hora de responder as perguntas. Tinha de ser tudo de cabea mesmo. Admirvel. E o bastante para dizer que Watson est para o Deep Blue como um cachorrinho est para uma formiga. Trata-se de uma inteligncia infinitamente superior  ainda que no chegue aos ps da humana.
     Mas para alguns especialistas essa nossa vantagem no deve durar mais tanto tempo.  o caso de Kurzweil. Para ele, os chips devem nos ultrapassar at a metade do sculo.  quando toparemos com o que ele e outros cientistas chamam de singularidade tecnolgica. Vamos ver o que  isso.
     Na fsica, singularidade  o que acontece no interior de um buraco negro. Um buraco negro se forma quando uma estrela implode e comea a ser destruda pela prpria gravidade. Chega uma hora em que no sobra mais estrela. S gravidade. Na verdade, um pontinho no espao onde a gravidade tende ao infinito. Esse pontinho  o que os fsicos chamam de singularidade . Com o passar do tempo, a singularidade vai sugando tudo o que tem  sua volta. A massa e a energia dos objetos que ela engole deixa o buraco negro mais forte. O poder de suco dele aumenta, ele engole mais coisas, fica mais forte... Em suma: o crescimento do buraco negro acontece numa espiral infinita. Com a singularidade tecnolgica seria a mesma coisa. Uma mquina mais inteligente que a humanidade criaria ela mesma mquinas ainda mais sofisticadas, sem precisar de programadores humanos. A inteligncia artificial cresceria por conta prpria, igual o poder de suco dos buracos negros. Esse processo tenderia ao infinito, com mquinas dando  luz mquinas incrveis que depois criam mquinas ainda mais fantsticas. E ns ficaramos s assistindo.
     Isso  s uma possibilidade terica. Mas talvez estejamos dando agora mesmo os primeiros passos para chegar a essa realidade. E por um motivo simples: construmos mquinas cada vez mais  imagem e semelhana do nosso crebro. A inteligncia humana foi produzida pela seleo natural. Ao longo da evoluo, nossa cabea cresceu para lidar com desafios que nossos corpos no teriam como vencer  tente correr de um leo na savana africana para ter uma referncia mais completa do que estamos falando.
     A sobrevivncia dos seres humanos dependeu basicamente do desenvolvimento da capacidade de criar extenses dos nossos corpos  ferramentas  e ao mesmo tempo ter a chance de nos especializarmos no uso delas. Podemos, portanto, resumir o crebro humano em duas qualidades bsicas: capacidade de processamento (para imaginar a ferramenta certa) e plasticidade (para se adaptar ao uso da tal ferramenta).
     Primeiro vamos falar da capacidade de processamento. Qual  o desempenho computacional dos nossos miolos? Pesquisadores da IBM fizeram essa conta e estimam que o crebro  capaz de atingir 36,8 petaflops  ou 36,8 quatrilhes de operaes por segundo. Isso equivale a mais ou menos 1 milho de PCs trabalhando em conjunto.
     Coordenar o trabalho de tantos chips ainda  algo impossvel com a tecnologia de hoje. Mas os super-computadores tm avanado um bocado. Em 2012, o Sequoia, da IBM, conseguiu atingir 16,32 petaflops  quase metade da capacidade humana. Ainda assim, ele no faz nada to incrvel quanto ns fazemos  coisas como pensar que estamos vivos. Por qu? Para responder a essa pergunta, entra a segunda qualidade bsica da sua cabea: a plasticidade.
     Seu crebro  altamente malevel, adaptvel. Conforme o sistema nervoso vai se desenvolvendo, diversas regies cerebrais vo assumindo diferentes responsabilidades. Sabe-se, por exemplo, que h reas determinadas para o processamento da linguagem. Tambm h partes especficas do crebro que controlam partes diferentes do corpo, como os ps e as mos.
     Mas o melhor de tudo  que d para adaptar o crebro conforme o uso.  a plasticidade que permite, por exemplo, que um sujeito se torne um grande pianista. As reas do crebro referentes s mos se expandem enormemente em quem treina piano durante muitos anos. Nosso crebro  um sistema projetado para aprender, para se moldar na interao com o ambiente, diz o psiclogo Steven Pinker, de Harvard, um dos maiores especialistas no funcionamento da massa cinzenta. Os melhores crebros eletrnicos de hoje funcionam basicamente assim. Ou seja: eles conseguem aprender. As tcnicas que evoluram no campo da inteligncia artificial so similares s tcnicas que o crebro usa, diz Kurzweil. E isso no aconteceu porque esse campo de pesquisa estava copiando o crebro. Ou seja: foi uma feliz coincidncia. Uma coincidncia que permitiu mquinas como o Watson, capazes de aprender por conta prpria quando leem um livro  que nem voc.
     Conforme a plasticidade dos crebros eletrnicos aumente,  possvel que uma hora eles fiquem to complexos quanto o crebro que voc carrega. Kurzweil, que  o maior arauto dessa tese, estima que as mquinas chegaro a uma inteligncia equivalente  humana em 2029. Sim, exatamente 2029. Ele chegou a esse nmero com base em projees matemticas sobre a evoluo da capacidade de processamento. Claro que a previso  polmica  para muitos pesquisadores, cravar o ano em que algo to imprevisvel e inslito deve surgir  loucura. Ponto. Seja como for, pelas contas de Kurzweil, a singularidade propriamente dita comear em 2045, quando um nico computador ser mais inteligente que a humanidade inteira.
     Uma mquina com tamanho poder seria to fascinante quanto perigosa. Por um lado, ela seria capaz de coordenar e executar todas as atividades hoje atribudas a ns, como escrever um grande romance ou unificar numa s teoria a fsica quntica (que rege o universo subatmico) e a relatividade (que dita as ordens no mundo das coisas grandes)  algo que Einstein morreu tentando fazer. Tudo isso em questo de segundos, lindo. Por outro lado, qual  o nvel de respeito que uma mquina assim teria pela gente? Estamos falando de um sujeito para quem um Einstein ou um Dostoievski so s cachorrinhos  e ns, formigas. A gente no d muito valor  habilidade intelectual de uma formiga, certo? Isso d a noo exata do tamanho do perigo. Estamos criando uma possvel forma de vida ultrapoderosa que pode ou no compartilhar nossos valores ticos e morais. Para discutir essas implicaes, alis, Kurzweil criou um projeto ambicioso: a Singularity University, no Vale do Silcio. Trata-se de uma entidade fundada em 2008 que oferece cursos de ps-graduao focados em montar, educar e inspirar um grupo de lderes. A esses lideres caber guiar o desenvolvimento dessa superinteligncia artificial que estaria por vir. A esperana por trs da iniciativa  que essas mquinas j nasam cultivando valores como democracia, liberdade de expresso... Em suma, fazer com que elas, mesmo sendo vastamente mais poderosas que ns, tenham bom senso suficiente para no nos destruir. As pessoas dizem: Ei: isso no soa como uma estratgia infalvel, diz Kurzweil. E no  mesmo. Mas  o melhor que podemos fazer.

UPLOAD DE CONSCINCIAS
     Se voc no pode venc-los, junte-se a eles. Esse ditado vai fazer mais sentido do que nunca num mundo com mquinas bilhes de vezes mais inteligentes do que ns: juntar-se a elas pode ser o futuro da humanidade. Um dia poderemos descarregar nossas lembranas num computador e preserv-las, diz outro especialista em sistemas inteligentes: o brasileiro Miguel Nicolelis, que trabalha no desenvolvimento de prteses capazes de conversar com crebros humanos  e de funcionar como se fossem braos ou pernas normais. Esse descarregamento, em tese, pode significar o upload da sua conscincia para dentro de uma mquina. A mente continuaria viva aps a morte do corpo. E acabaria deitada eternamente no bero esplndido de um simulador de realidade... No deixa de ser uma forma de alcanar a vida eterna.
     Bom, provavelmente caber  mquina decidir se voc vai saber que vive numa simulao. Ela pode achar que  melhor voc no saber de nada, e ir tocando a vida achando que tem um corpo, que respira, que vai morrer um dia... Se for assim, inclusive, a singularidade pode j ter acontecido. E ns estaramos vivendo agora mesmo numa iluso, numa Matrix. Essa hiptese, ao menos filosoficamente, no tem como ser refutada, j que no d para imaginar o que uma inteligncia superior  realmente capaz de fazer. Ou de j ter feito.

PARA SABER MAIS
How to Create a Mind. Ray Kurzweil, Penguin. 2012.

